Agora, que já passou um ano sobre a mega-feijoada servida sobre o tabuleiro da ponte de Portimão, no dia 15 de Julho de 2009 reaberta com pomba e circunstância, convêm reflectir sobre o valor do património e dos cuidados a ter para a sua preservação.
Quando se fala de património a que acresce o valor simbólico, como uma igreja, a generalidade das pessoas compreende o que são intervenções inadequadas, por exemplo, não caberia na cabeça de responsáveis (acho) retirar o telhado de telha de barro de um templo religioso e substitui-lo por um de zinco. Aquilo que tem uma certa monumentalidade e um uso de pedra, como ornamento ou como estrutura, é alvo de atenção e algum zelo, mas só nos últimos anos tem sido dado alguma atenção a outro tipo de edificações, feitas com materiais populares, como as alvenarias de taipa, tijolo, adobe, etc. Temo-nos esquecido do património industrial (muito superfluamente abordado) e da arquitectura do ferro, típica da segunda metade do séc. XIX e ainda da primeira vintena do séc. XX.
Portimão tem uma ponte rodoviária aberta desde 1876 (antecedendo em um ano a ponte D. Maria, no Porto), que é expoente regional único da arquitectura do ferro aplicado às vias de comunicação, privilégio comummente destinado às pontes ferroviárias. Já agora, porque não tem um nome dignificante a ponte de Portimão? Nesta cidade, as pontes rodoviária e a ferroviária são duas construções de grande interesse patrimonial, sendo que a prioridade de protecção devia ser para a primeira, por força da antiguidade e maior raridade. A ponte rodoviária era uma elegante demonstração de alta engenharia dos finais do oitocento, com trezentos longos metros de tabuleiro sobre o estuário do rio Arade, a que podemos acrescentar os três elegantes arcos de alvenaria já sobre solo portimonense, que visaram criar as rampas de nivelamento para o tabuleiro: os dois sobre o Largo da Barca e o outro sobre a rua de S. José.
Porque uso a forma verbal passada para me referir à beleza e majestade da velha ponte sobre o Arade?
Paradoxalmente, parte da ponte foi parcialmente aniquilada pelas obras de conservação e consolidação da estrutura. A Estradas de Portugal (EP) foi mentora de um crime de lesa-património, enquanto a empresa construtora foi a autora material. Os autarcas Manuel da Luz (Portimão) e José Inácio (Lagoa), mais o ministro das Obras Públicas, Mário Lino, foram os cúmplices, quanto mais não seja, por omissão. Quem hoje passa pelo tabuleiro da ponte certamente vê uma ponte “um pouco mais larga, muito bonita e certamente mais segura”, conforme se noticiou em 2009, mas o utente certamente não vê uma estrutura com mais de cento e trinta anos. Porquê?... Porque os ferros forjados das guardas foram retirados e substituídos por modernaças tubagens redondas e brancas; porque não se aproveitou (nem provavelmente se pensou) a ocasião para colocar candeeiros de iluminação contemporâneos da estrutura; porque se decidiu pela laje de betão ao invés de alternativas mais consentâneas com o estilo e design da ponte… E os rails, seriam assim tão necessários neste tipo de estrutura?!
Modernidade e antiguidade podem e devem conviver em perfeita comunhão, e talvez este Algarve de sol e praia (que tantos outros países oferecem a preços mais apelativos) um dia descubra que não vai ser o alumínio brilhante, o vidro espelhado, o deck de madeira, o espelho de água, a fonte cibernética, a rotunda artística a salvar-lhe o turismo. Uma ponte da arquitectura do ferro, de 1876, não é uma verruga no nariz que deva ser escondida, é algo que deveria ter sido acarinhado e defendido nas suas características e particularidades próprias, para lhe aumentar o valor e a alma….
Venham os telhados de zinco para as igrejas, é fartar vilanagem!
* Professor de História























